Eu andei. E andei muito. Morava longe, uns 40 minutos de solitária caminhada naquela noite fria. E o vento forte trazia aquela chuva fina, irritante, mas que não impede os vagabundos da noite de saírem de seus ninhos. Estavam todos lá, me encarando e gritando coisas indecifráveis enquanto eu passava afundado no meu capuz. E eu retribuía os olhares carniceiros; uma questão de sobrevivência. A coisa é simples: vagabundo olha vagabundo, e nenhum se aproxima do outro a ponto de ter uma faca afundada nas tripas.
A música do fone tocava baixo entre a toca de lã e a minha orelha, apenas em uma orelha. A outra estava ocupada contando os meus passos, sondando os possíveis passos atrás de mim. E os meus eram passos melequentos, nhec, nhec, nhec. Parecia que toda a cerveja do chão do bar tinha vindo junto na sola do meu tênis. Do centro da cidade até a praça tudo é lindo e iluminado; os possíveis incômodos estão sendo enchotados pelos frentistas dos postos, posso andar tranquilo. Chego na praça, ando uns trinta passos por um corredor que mais parece um cenário de filme antigo naqueles momentos de assassinato. Macabro, exceto (ou não) pelo posto policial que fica logo no fim do corredor, e ninguém seria bobo de aprontar justamente ali, sendo que a praça é grande o suficiente para fazer merda em qualquer outro canto. Ao menos é no que tento acreditar. Passo pelo posto, que sempre fica mais lacrado que carro-forte, só consigo ouvir o som abafado do rádio lá de dentro. E sigo. A avenida contorna a praça, a parte mais plana que minhas pernas vão apreciar essa madrugada.
Agora desço rápido, o peso das pernas com o desequilíbrio da cabeça me faz chegar ao fim em pouco tempo, cruzando por poucos segundos por uns outros mulambentos que fazem seus próprios trajetos na garoa. Chego na baixada, rua larga, iluminação tosca todo o trajeto, mas agora é barulhento. Aqueles dois cachorros latem, nem sabem pra que lado latir, mas não param. Me encontram e ficam correndo por todo o terreno, falando comigo. É como um aviso pra que eu apure o passo, pois agora todos sabem que estou passando ali, e a subida é longa. Estranhamente, nessa baixada sempre houve uma fonte inesgotável de pedras. Pedras lapidadas pra servivem precisamente na mão, prontas pra entrarem em vôo livre até uma cabeça aleatória. E eu recolho uma, pois a tempo já deixara de andar com meu canivete. Muito perigoso (pra mim), eu e quatro dedos de aço afiado...
Quase em casa. Já estou na metade da subida, a parte mais precária antes do fim de mais uma saga noturna. O poste se esforça para brilhar, mas nem isso consegue mais. A calçada, é puro buraco com lama, como se alguém tivesse passado a tarde marretando o chão e depois molhando o barro, tudo de propósito para me sacanear, claro. Só que eu, muito esperto, já conheço bem a rota. Vou um pouco para a direita, mas não a ponto de me afundar nos matos da rua, piso na pedra maior, que não jorra lama em mim, dou um pequeno pulo e pronto. Chão firme denovo.
Claro, nem sempre é assim. As vezes o medo chega, e aí eu corro. Corro sozinho na noite, fugindo das merdas que tem por aí. Corro e pulo com precisão invejável na poça, jorrando uma água suja que calculadamente aterriza entre o calçado e a perna, ensopando as meias. Isso não importa, não se pode pensar nas meias quando se está fugindo de algo que não se sabe o que é. A pedra, a garrafa ou o que quer que fosse minha ilusória defesa ficou pelo caminho a meia quadra de casa. Não quero acumular armamentos de rua na frente do meu portão.
Agora é só descobrir em qual dos bolsos ficou a chave. Reviro meus jeans, reviro meu casaco, denovo os jeans. Estou ofegante. Porra! Percebo que estava com o chaveiro na mão direita desde a baixada, com cada chave entre um dedo, crendo que aquilo me traria alguma segurança. Abro o cadeado, que se desmonta e caí metade pra cada lado, batendo na grade e acordando meus cachorros. Mas os preguiçosos estão dentro de casa nesse frio, soltam dois, três latidos sonolentos e ficam esperando na porta de casa. Eu desenrolo, com todo cuidado de um bêbado, a corrente que era presa no cadeado. Uma última olhada ao meu redor, ver se não há um malandro esperando pra entrar comigo, e passo pelo portão, espanto-me com o ranger enferrujado que ele faz. Envolto a corrente nas suas grades, rapidamente, e junto da escada as partes do cadeado. Agora sim, seguro em casa. Amanhã eu vejo o que falta na minha carteira, ou o que há de novo dela.
Imagem de: http://tebe-interesno.livejournal.com/